X
Dólar
Euro
21 de June de 2021

Espírito do Natal e Espírito do Tempo

25/05/2021 | 10h58min

Pelo fim do ano, ocasião em que se celebram ritos pela passagem de mais um ciclo de doze meses, a tradição cristã aponta para o nascimento de Jesus trazendo esperança para a humanidade. O espírito de Natal, ou seja, o clima gerado pelas festas de fim de ano, se traduziria por práticas de fraternidade e solidariedade a serem despertadas nas pessoas. Outro aspecto importante no nascimento de Jesus é que este traria luz à existência humana, em contraponto às trevas da intolerância, indiferença e do egoísmo.

Abstraindo o aspecto religioso, o caminhar das civilizações pontuou-se em cumprimento a tal espírito, pelas conquistas de espaços de inclusão dos marginalizados e do acesso dos bens da vida ao maior número de pessoas e, importante, se buscando a tolerância e o respeito, avançando-se em direção à modernidade, à laicidade e à paz civil. Esta estrutura social, com fundamento na declaração universal dos direitos humanos, é a que permite a convivência sadia e equilibrada entre os diferentes num ambiente social plural.
Estes ideais também mobilizavam os sonhos das pessoas, elevavam os seus espíritos e canalizavam todas as suas energias para trabalhar em seu favor.

Nos últimos tempos, porém, estamos assistindo a um desmantelamento perigoso dos postulados que nortearam as sociedades em suas construções civilizatórias, nesta marcha que até então era entendida como inexorável.

Não quero adentrar nas causas, mas na constatação desta reviravolta de comportamentos e de concepções que nos deixam ora preocupados, ora escandalizados. Amin Maalouf, em “naufrágio das civilizações” fala do “espírito do tempo”, que a filosofia alemã chamou de Zeitgeist para designar esse fenômeno, o qual se faz necessário para a compreensão dos rumos da história.

O “espírito do tempo” se desenvolveria por todos os que vivem numa determinada época, agindo de forma a que se influenciariam uns aos outros na literatura, nas artes, na política, na medicina, em como se vestir, no jeito de andar, nos cortes de cabelos, entre outros, mas sem ter consciência disso. Não obstante o “efeito manada” do “espírito do tempo” ocorra sem que se perceba, seu efeito é visível e de fácil constatação na vida em sociedade.

Segundo o escritor Peter Sloterdiijk, um sentimento irresistível de raiva perpassa as sociedades e é alimentado pelos que se inserem na condição de prejudicados, excluídos e discriminados. Essa cólera é gerenciada historicamente por atores que se apresentam em uma determinada quadra e conseguem controlar essa fúria, direcionando-a para um projeto político, como foi, segundo ele, o caso da esquerda.

Atualmente, esta raiva foi reorganizada pelos novos populistas, que do Leste Europeu aos Estados Unidos, Itália, Áustria, países escandinavos e Brasil, desferem os petardos de ódio contra as elites tradicionais, galvanizando não apenas as categorias mais pobres e reabrindo feridas sobre gênero, religião, identidade e nação para jogar-nos uns contra os outros.

Os veículos utilizados desta vez, porém, estão fazendo uma substancial diferença na ampliação do clima de ódio. As redes sociais são talhadas, em sua concepção, para que os usuários se mantenham permanentemente conectados e para tanto são conduzidos a sentirem-se constantemente enervados, com medo e com uma sensação de perigo. O aumento considerável do nível de raiva e ira em nossas sociedades é contemporâneo à ampliação da penetração das redes sociais, que funcionam, portanto, como vetores da violência.
Sabemos que não há vencedores e vencidos num mundo regido pela violência. Ela é uma espiral que engolfa a todos e não há futuro, desenvolvimento e prosperidade com sua presença entre nós.

Pode a humanidade permitir que se destrua tudo que levou milênios para construir ? Para enfrentar esta situação se faz necessário que, em meio aos engenheiros do caos e do ódio, haja semeadores e construtores da paz, alertando, explicando, prevenindo e exortando, lembrando que os cenários de divisão e preconceito ora vivenciados são incontroláveis, daí a necessidade de se ir à luta com lucidez e desassombro para que tenhamos o espirito de Natal como uma realidade e não como lembrança histórica.

Advogado, Mestre em Direito pela PUC- SP, Professor Universitário. Exerce o cargo de Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional da Paraíba no triênio 2019/2021

Paulo Maia