Dando continuidade às entrevistas com os candidatos a reitor da Universidade Federal da Paraíba, o Paraiba.com.br conversou com o candidato Rômulo Polari.
Paraiba.com.br - Quais são as principais deficiências da UFPB?
Rômulo Polari - São as mesmas de qualquer universidade federal do país. Temos deficiência com infraestrutura e a razão disto é que o Governo Federal, responsável pelo financiamento destas universidades, desde 95, ter praticamente congelado o orçamento da Universidade como um todo e ter deixado de repassar recursos para investimento na recuperação, modernização e expansão da infraestrutura. O Governo precisa acordar para isto sob pena de inviabilizar todo um processo bem sucedido de modernização das universidades e melhoria da qualidade acadêmica e científica do país, que são feitas mais pelo segmento público, sobretudo o segmento público federal.
Outro problema é o quadro de pessoal. O Governo não tem dado a reposição de quadros da Universidade. Para exemplificar, se o quadro de professores tivesse a lotação toda autorizada para concurso, teríamos 1.900 professores. Só temos hoje 1.350. Estamos trabalhando com um déficit docente que se repete no pessoal técnico administrativo. Isto tem trazido muitos problemas. No Hospital Universitário, o funcionamento se dá porque houve contratação de pessoal terceirizado. E o pior de tudo: o Governo não autoriza a contratação de pessoal nem manda dinheiro para pagar os terceirizados.
Em resumo, as salas de aula não estão à altura do que deveriam ser de acordo com os padrões da modernidade da pedagogia, assim como os laboratórios não estão equipados para prestar bom serviço à pesquisa e à extensão, a biblioteca não tem um acervo atualizado, nem a rede de informática é atualizada, além de carecer de novos microcomputadores.
Paraiba.com.br - E quais são as principais qualidades da UFPB?
Rômulo Polari - A grande qualidade é que foi feito um esforço bem sucedido de qualificação do corpo docente. Dos 1.350 professores existentes na UFPB, mais de 600 são doutores e com o concurso realizado há pouco, o nível dos profissionais deve ser elevado. Além disso, temos cerca de 500 mestres. É um nível de excelência muito bom em padrão nacional.
Analisando este quadro de qualificação, ficamos pensando como, depois de fazer um trabalho tão bom, com base de doutorado e mestrado, carecemos ainda de estrutura básica, laboratorial e suporte de uma maneira geral para aproveitar mais integralmente este grande fator favorável que se encontra no corpo docente da universidade.
Paraiba.com.br - Quais são os principais pontos de sua campanha?
Rômulo Polari - Defendo uma infra-estrutura de melhor qualidade. Precisamos de um modelo de gestão mais eficiente para aprender a trabalhar em uma situação de penúria orçamentária, fazendo mais com menos. Isso envolve um programa de racionalização de despesas com as atividades-meio da universidade para sobrar mais dinheiro para as atividades-fim, ou seja, ensino, pesquisa e extensão.
Temos despesas com energia elétrica, água e esgoto, telefone, vigilância e limpeza que comprometem 65% de todo o Orçamento que o MEC repassa para custeio e investimento da UFPB. Evidentemente que se esses recursos forem melhor administrados vai sobrar mais dinheiro para outras finalidades.
Sabemos, contudo, que isto somente não vai resolver. Vamos lutar no plano nacional para que a Reforma da Universidade que está sendo prometida pelo Governo seja feita observando um dado: O Brasil pode comprometer seu futuro em termos de desenvolvimento científico e tecnológico, sobretudo as aspirações de desenvolvimento tecnológico da sociedade brasileira se não dispensar a devida atenção ao ensino superior público do país. São as universidades estaduais e federais - sobretudo as estaduais de São Paulo - que garantem o padrão médio para o País pensar e desenvolve-se no campo da Ciência e Tecnologia.
Se o descaso aumentar, há o risco de se comprometer até o futuro do País.
Paraiba.com.br - Qual sua opinião sobre o Restaurante Universitário?
Rômulo Polari - O Restaurante Universitário está na nossa política de assistência estudantil e envolve lazer, esportes, práticas culturais, manifestações artísticas, programação de grandes debates com temas da atualidade mundial, nacional, local e da própria universidade. Temos também um capítulo dedicado ao aluno pobre, vindo da escola pública e que precisa encontrar os meios e os mecanismos de uma política de inclusão social para que eles possam concluir o curso com bom aproveitamento.
A taxa de evasão é muito grande entre esses alunos por falta de meios. Isto envolve uma política de restaurantes gratuitos, residências universitárias e além disso uma política de bolsas de trabalho na qual o aluno possa receber pelo serviço prestado à universidade, notadamente em áreas com necessidade de pessoal pela ausência de concurso, possa ter uma bolsa para financiar outros itens que não somente a moradia e a alimentação.
Vamos travar uma discussão com a sociedade em geral porque o RU tem que se visto com um mecanismo importante para a permanência do aluno no campus mais freqüente durante o dia. Por isto temos que debater formas de abrir o RU a toda a comunidade estudantil, mas sabendo que atualmente a gratuidade assim estendida não é possível.
Paraiba.com.br - E as Residências Universitárias?
Rômulo Polari - Defendo que elas passem por melhorias. O compromisso com a inclusão social é justificado pelo fato de a Paraíba ser um dos Estados mais pobres da Federação. Que não haja residência e restaurante gratuito na USP, por exemplo, é compreensível, mas aqui há uma necessidade. Vamos melhorar o padrão da residência estudantil. Os alunos se queixam de do acervo insuficiente da biblioteca, falta de computadores... esse acesso à informática, comum a estudantes de classe média, cria uma concorrência desleal entre eles no processo acadêmico. Nossa idéia é criar uma nova residência universitária no Campus I para o aluno de graduação e uma residência para os alunos de pós-graduação. A mesma coisa estaríamos fazendo no Campus de Areia, onde há uma pós-graduação já bem desenvolvida, além de concluir e melhorar a residência do Campus de Bananeiras.
Paraiba.com.br - Qual sua opinião sobre a paridade dos votos na eleição para reitor da UFPB?
Rômulo Polari - Foi isso que a comunidade decidiu e eu tenho que aceitar. Acredito ter sido uma conquista histórica, mas é preciso examinar melhor a questão. Na eleição anterior, o peso era de 70% para professores, 15% para servidores técnico-administrativos e 15% para o alunado. Nesta eleição, cada segmento tem um terço dos votos, mas é uma paridade a posteriori. Significa que para os alunos terem 1/3 dos votos é necessário que 100% dos estudantes votem. Caso contrário, o que era 1/3 pode cair para 1/6 e o percentual pode ser ainda menor do que na eleição passada. Normalmente, o percentual de alunos que vota não chega a aproximar-se da totalidade. Somente 40% ou 50%. Se eles não exercitarem o direito que conquistarem, vão dar um tiro no pé.
O segmento que mais vota, historicamente, é o dos professores, com 90% do quadro docente comparecendo às urnas, até porque o número de professores é bem menor que o de alunos. Entre os servidores, os eleitores tradicionais são em torno de 70%.
Paraiba.com.br - No seu plano de ação existe alguma estratégia para integrar a academia e a sociedade?
Rômulo Polari - Uma das grandes diretrizes do nosso reitorado será essa. A principal é fazer a Universidade avançar como instituição de ensino superior relevante em termos acadêmicos e científicos. A busca da qualidade acadêmica não deve ser um fim em si mesmo. Ela serve para aprofundar a integração entre a Universidade e a Sociedade. Moramos em um Estado pobre que passa por um violento processo de involução econômica no cenário nordestino. A economia da Paraíba há duas décadas e meia atrás era quase o dobro da economia do Rio Grande do Norte. Hoje, a economia potiguar já é maior que a nossa. Isto não é aceitável para um Estado com uma universidade tão importante quanto a UFPB. Além da UFPB, o Estado tem a UFCG, a UEPB e os Cefets. Em meu reitorado teremos obrigação de aumentar a integração da Universidade com linhas de pesquisa específicas voltadas para solução de problemas do nosso Estado em todos os campos da Economia, Cultura, Educacional, etc.
Paraiba.com.br - A UFPB ganhou ou perdeu, na sua opinião, com a criação da UFCG?
Rômulo Polari - Se nós entendemos que ela assim dividida vai criar mais energia tanto do lado de uma quanto da outra, ela ganhou. Mas, ainda não podemos dizer que o processo de desenvolvimento de cada uma será mais rápido com o desmembramento. Um fato é verdadeiro, com a universidade que integrava os sete campi que tínhamos, a opinião dela era mais forte dentro do cenário nacional porque era a terceira ou quarta maior universidade do Brasil em termos de Orçamento, Quadro Docente e Quadro Técnico-Administrativo. A palavra da UFPB certamente era mais forte antes do que será agora. Não tenho uma opinião formada, mas como era uma aspiração muito grande da comunidade acadêmica de Campina Grande o pessoal da cidade vai fazer uma boa administração dos recursos dos campi de Campina Grande, Patos, Sousa e Cajazeiras. |