Dando continuidade às entrevistas com os candidatos a reitor da Universidade Federal da Paraíba, o Paraiba.com.br traz a opinião da candidata Maria José sobre assuntos referentes à Universidade. Ela preferiu responder às perguntas por e-mail, encaminhado pela assessoria à Reportagem do portal de notícias.
Paraiba.com.br- Quais são as principais deficiências da UFPB?
Maria José*- Prefiro tratá-las como dificuldades, plenamente passíveis de superação. Vamos dividi-las em três dimensões. A primeira é e será sempre a humana, ou seja, a nossa força de trabalho, para a qual faltam mecanismos de incentivo, ascensão, qualificação e remuneração em padrões adequados às necessidades dos nossos professores e técnico-administrativos.
A segunda dimensão é didático-científica, por conta de nossa insuficiente integração - falo de uma verdadeira e efetiva integração - entre o ensino, a pesquisa e a extensão, que se soma a uma relutantemente incipiente implementação dos projetos políticos-pedagógicos nos nossos cursos de graduação.
A terceira, não necessariamente a última, é a infra-estrutural, a dimensão física, que nos coloca diante do desafio de interromper e reverter a precarização da maior parte de nossas instalações prediais e da obsolescência de boa parte dos nossos equipamentos.
Paraiba.com.br- Quais são as principais qualidades da UFPB?
Maria José- O espaço é pouco para mencionar todas, mas vamos tentar resumir. A primeira é e sempre será a humana, mais uma vez a nossa valiosíssima força de trabalho, que, apesar de todas as adversidades e dessa política de RH ruinosa para o serviço público em geral e o sistema federal de ensino superior em particular, tem um compromisso muito forte com uma Universidade pública e de crescente qualidade.
É impressionante e está sendo muito gratificante confirmar isso na presente campanha para a Reitoria. Dá gosto ver como esses valores estão cristalizados na grande maioria dos nossos professores, funcionários e alunos. E isso é uma grande qualidade, a principal qualidade de nossa comunidade universitária, diria.
Claro que, em decorrência desses valores, temos a oferta de cursos em todas as grandes áreas do conhecimento humano, do nível médio a mais alta pós-graduação, e isso é uma coisa que reafirma e reforça o caráter público de nossa Instituição. É isso que dá sentido a uma Universidade digna desse nome e, mais importante ainda, mostra que a UFPB não se guia por uma lógica de mercado e, sim, pelos mais elevados interesses da sociedade. Essa é outra fantástica qualidade de nossa Universidade, pouco percebida e pouco lembrada pelas pessoas.
Uma terceira qualidade - para ficarmos apenas nas três mais expressivas - é a profunda inserção e identificação da UFPB com a Paraíba. Também aí temos um aspecto pouco percebido e valorizado pelas pessoas. Nossos cursos, nossas linhas de pesquisa, nossos programas e ações de extensão são todos eles voltados e comprometidos com a realidade do Estado e da região.
Temos também que ressaltar o fato de ser difícil encontrar, hoje, uma família paraibana com pelo menos um de seus membros que tenha um diploma de nível superior sem que esse diploma não tenha sido obtido na UFPB. Não existe isso de uma Universidade "apartada" de nossa sociedade, portanto. Além disso, não há como desconhecer, nossos melhores profissionais e dirigentes públicos saíram dos cursos da UFPB. Somos responsáveis pela formação da imensa maioria da força de trabalho qualificada em nosso Estado.
Somos ainda um dos principais centros de pesquisa e de pós-graduação de todo o Norte-Nordeste-Centro-Oeste do país. Somos, enfim, apesar de todas as dificuldades e adversidades, uma das maiores universidades de nossa região e do país. E, se você quiser um dado econômico de peso, a UFPB é o segundo maior orçamento do Estado, superada apenas pelo próprio Governo do Estado. Significa que a Universidade injeta na economia estadual cerca de 400 milhões de reais por ano, apenas com seu custeio, verba de pessoal e pagamento de encargos de folha. Isso, sem falar nas verbas extra-orçamentárias e nos recursos que gera a partir dos conhecimentos e tecnologias que transfere para o setor produtivo.
Paraiba.com.br- Quais os principais pontos de sua campanha?
Maria José- Em primeiríssimo lugar, a defesa intransigente e sem tréguas da Universidade Pública, gratuita, de qualidade. Decidimos que esta campanha, independentemente de seu resultado, deveria servir à reinserção desse tema na pauta das preocupações de nossa comunidade universitária e, conseqüentemente, de toda a sociedade paraibana. Porque esse é um tema que voltou a figurar na pauta da educação pública superior de forma imperiosa e urgente, sobretudo diante das recentes investidas de setores de dentro e de fora do governo que visam, claramente, o descompromisso do Estado com manutenção desse que é, sem dúvida, um dos maiores e melhores patrimônios da sociedade brasileira.
Como ressaltei na Carta de Princípios que lançamos no início da campanha, "vamos resistir tenazmente a todo e qualquer projeto de reforma que ameace desfigurar a natureza estatal e, conseqüentemente, o caráter público e gratuito das universidades federais". A minha candidatura a Reitora e a do professor Alberício Andrade a Vice-Reitor têm esse propósito central e fundador: unir e mobilizar toda a nossa comunidade universitária e a sociedade paraibana em torno desse ideal.
Outro ponto fundamental de nossa campanha é mostrar para os nossos colegas professores, alunos e funcionários que as soluções e alternativas em nossa Universidade passam, sobretudo, pela participação e diálogo. Estamos conscientes de que não será tarefa fácil construir, em um cenário naturalmente divergente, o necessário consenso em torno do que nos une: a UFPB. Nesse processo teremos que negar estereotipia, as posições pré-concebidas. Elas tão somente contribuem para desqualificar o amplo e indispensável debate em torno da Universidade que temos, para construir a Universidade que queremos.
Um terceiro ponto - não necessariamente o último, lembro mais uma vez - é a receptividade que estamos encontrando na Academia quanto à capacidade que temos, ainda inexplorada, de formular políticas institucionais ousadas que promovam e articulem, de forma renovada e eficaz, todos os diversos fazeres da Universidade moderna: ensino, pesquisa, extensão e desenvolvimento de bens e serviços para a sociedade. Assumimos o desafio de repensar sistematicamente as práticas acadêmicas, buscando permanentemente a qualidade do ensino, a oferta de formação contemporânea, a integração de conhecimentos e atividades, o olhar para a sociedade.
Paraiba.com.br- Qual é a sua opinião sobre a gratuidade do restaurante universitário? E quanto às residências universitárias, vai haver alguma mudança?
Maria José- Os restaurantes e residências gratuitos têm um papel muito importante no suporte acadêmico dos alunos de baixa renda. A nossa Universidade é a única em todo o Brasil que ainda mantém tais serviços sob tais condições, apesar de o governo federal, há muitos anos, não destinar um único centavo para apoiar esse tipo de suporte ao estudante nas IFES. Isso não quer dizer que a Universidade não possa buscar alternativas que melhorem suas políticas de suporte acadêmico ao estudante. Vejo um certo imobilismo nesse aspecto, que precisa ser urgentemente superado e esperamos fazer isto em nosso reitorado. Como? Primeiro, temos que discutir como fazer isso com os maiores interessados, ou seja, os alunos. Vamos convocar os representantes do corpo discente para uma ampla discussão sobre a melhoria, manutenção e acesso aos programas de suporte acadêmico existentes. É preciso construir uma política de desenvolvimento para o corpo discente que ultrapasse os limites dos programas convencionais de assistência ao estudante. Compreendemos que é preciso consolidar programas institucionais existentes e implementar novos programas que mobilizem o corpo discente em atividades complementares à sua formação e que sejam comprometidos com o atendimento de demandas da sociedade.
Paraiba.com.br- O que você acha da paridade dos votos? Estudantes, funcionários e professores devem ter o mesmo peso na votação?
Maria José- A paridade é, sem dúvida, um grande avanço. Ela oferece equilíbrio à participação dos três segmentos no processo sucessório e, conseqüentemente, confere a tais segmentos a co-responsabilidade na implementação das medidas necessárias às melhorias na Universidade. Ainda não avançamos o suficiente, claro, mas a comunidade universitária em todo o país saberá pressionar o governo e o parlamento para que modifiquem a legislação em vigor, que ainda trava a verdadeira democratização do processo de escolha dos nossos dirigentes. Pessoalmente, considero que esse processo tem que ser definido normativamente e se esgotar no âmbito de cada instituição. Temos que evoluir para esse estágio e, creio, essa é a vontade majoritária em nossa Universidade.
Paraiba.com.br- No seu plano de administração existe alguma ação específica pra facilitar a integração da academia com a sociedade?
Maria José- Não temos que ter uma ação específica. Temos que ter várias. Podemos fazer isso principalmente através da extensão, promovendo a interação da Universidade com a sociedade envolvente, contribuindo na prática para a difusão do conhecimento produzido pela Universidade e sua socialização. Não estou me referindo, obviamente, a uma extensão compreendida como mecanismo de oferta e venda de produtos e conhecimentos desenvolvidos pela Universidade. Estou me reportando a uma extensão que dá legitimidade à Universidade enquanto Instituição Pública, pela explicitação dos resultados e da relevância de suas atividades para além da comunidade dos pares, em âmbito social mais abrangente. Daí que podemos e devemos ampliar o suporte institucional à difusão científica, tecnológica, artística e cultural, além dos mecanismos já criados nos últimos anos, e agregar ainda outros mais, tantos quantos forem possíveis. Os núcleos culturais da UFPB, por exemplo, estão necessitando urgentemente de suporte financeiro para sua atuação. A TV e a rádio universitárias, integrantes de um pólo de pesquisa e produção multimídia ora em implementação na UFPB, projeto este que vem merecendo especial atenção e envolvimento da nossa parte na sua concretização, serão instrumentos potencializadores do alcance das ações de integração da Universidade com a sociedade.
Noutra vertente, vamos nos voltar para ações que favoreçam a integração com o desenvolvimento local e regional. Para tanto, temos que atuar em conjunto com os sistemas estaduais de ciência e tecnologia, que assumem papel de maior importância no desenvolvimento científico e tecnológico nacional. Os atores desse processo - universidades, institutos de pesquisa, empresas, organizações sociais e gestores públicos dos sistemas estaduais - têm o dever de articular suas ações para evitar a duplicidade de esforços e para promover sinergias otimizadoras da aplicação dos recursos em pesquisa científica e na formação de recursos humanos qualificados. A Administração Superior da UFPB deve atuar fortemente como articuladora do potencial instalado na Universidade com os demais atores do sistema, transformando em atos e fatos o princípio da integração com o desenvolvimento local e regional.
Paraiba.com.br- A UFPB ganhou ou perdeu com a criação da UFCG?
Maria José- A Paraíba ganhou. Temos hoje duas grandes instituições federais de ensino superior, que se somam ao CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica) e à UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) e contribuem para que nosso Estado tenha um conjunto de ensino superior público muito forte e expressivo no contexto regional. Temos que considerar, ainda, que a criação da UFCG era uma reivindicação consistente e antiga da comunidade universitária de Campina Grande. O desmembramento, além de tudo, melhorou consideravelmente a agilidade de gestão das duas universidades. E, tenho certeza, a integração entre as duas e com as demais instituições públicas de ensino superior tende a se fortalecer nos próximos anos, fazendo com que atuem como um mesmo corpo, um mesmo ente propulsor do desenvolvimento local e regional.
*A professora Maria José respondeu as
perguntas junto com sua assessoria por e-mail |