Este ano o Departamento de Música da UFPB completa 25 anos com algumas gerações de bons músicos formados. O Paraiba.com.br achou uma pessoa que está no departamento desde sua criação. Na verdade, a história de Hector Rossi e a do Departamento de Música se misturam e se confundem muitas vezes.
Então vamos conversar com o professor de Contra-baixo da UFPB, Hector Rossi, que nasceu em Buenos Aires, Argentina, e mudou para João Pessoa em 1978 de onde não saiu mais.
Paraiba.com.br - Como você chegou à Paraíba?
Hector Rossi - Eu mudei para a Paraíba em 1978 para trabalhar na criação do Departamento de Música da UFPB, mas a história começa um pouco antes. Quando eu tinha uns 14 anos...
Paraiba.com.br - Claro, como foi a sua iniciação com a música?
Hector Rossi - Meu pai tocava Contra-baixo e eu admirava. Depois comecei a tocar também e entrei num Conservatório onde aprendi muito. Estudei lá dez anos. Eu gostava de tocar... quando era adolescente tocava baixo elétrico, toquei numa banda de música popular que fazia sucesso na Argentina. Até ganhei algum dinheiro... ajudava em casa.
Paraiba.com.br - E como é que você voltou à música erudita?
Hector Rossi - No conservatório, chega um momento que é preciso escolher porque é muito trabalho. Tinha que treinar muito e me dedicava demais. Eu escolhi o conservatório. Depois fui para a Universidade Católica de Buenos Aires, onde me especializei em Filosofia da Música.
Paraiba.com.br - Como acadêmico dá para ver que você é bom, mas quanto à música? Ouvi dizer que você é muito bom tocando.
Hector Rossi - Eu treinei muito. Em 1977 eu era o 1º Contra-baixista da Orquestra Sinfônica Argentina e era professor do Conservatório Municipal. Eu consegui chegar ao ponto em que tinha pouco a almejar e trabalhava demais, muitas horas 12, 14 horas por dia.
Paraiba.com.br - Sendo assim, eu preciso perguntar novamente, como é que você veio parar na Paraíba?
Hector Rossi - Agora sim. Em 1978, a situação política estava um pouco complicada por causa dos militares. Artistas e músicos não eram bem vistos e os salários estavam muito baixos... Enquanto isso, o Reitor da UFPB, na época Linaldo Cavalcanti, procurava pelo Brasil, músicos profissionais e professores de qualidade pelo sul e sudeste para criar o Departamento de Música e uma Orquestra Sinfônica na Paraíba.
Como a Paraíba não tinha a tradição de músicos de Orquestra, nenhum músico quis vir para a Paraíba. Então o Reitor resolveu procurar em nos países que fazem fronteira com o Brasil: Argentina, Chile... Assim ele formou a primeira turma de professores, todos estrangeiros, e de músicos para a Orquestra Sinfônica.
Eu fui chamado e junto com a minha família viemos para a Paraíba. Era o desafio que eu precisava e tinha a segurança de um contrato federal de professor de uma grande universidade.
Paraiba.com.br - Como foi a chegada?
Hector Rossi - Ninguém conhecia os instrumentos, sempre que descia na Lagoa (Parque Solon de Lucena) com meu Contra-baixo as crianças corriam, os adultos se admiravam... O instrumento era a atração, parecia coisa de extra-terrestre.
Paraiba.com.br - Mas havia interessados em fazer os cursos de música na universidade?
Hector Rossi - Sim. Muita gente veio fazer os cursos. Nós tínhamos uma vantagem que era o Departamento oferecer aulas de todos os instrumentos de uma Orquestra Sinfônica. Muita gente boa se formou. Logo nós já tínhamos uma Orquestra formada por paraibanos. Aliás, em 1988 a nossa Orquestra foi considerada a terceira melhor do País.
Paraiba.com.br - E hoje em dia, como anda o departamento?
Hector Rossi - Nós continuamos formando muitos e bons músicos, mas os investimentos e as verbas para projetos e relacionados à música e às artes em geral diminuíram muito nos últimos anos. Os nossos melhores alunos e professores acabam indo embora para outros estados e até outros países para buscar melhores condições de trabalho.
Paraiba.com.br - Mas a Paraíba continua "bem cotada" musicalmente falando?
Hector Rossi - Sem dúvida. Nós temos paraibanos nas principais Orquestras do país e alguns nas melhores do mundo. Na Sinfônica de Nova York há dez músicos da América Latina. Três são paraibanos. Se nossos alunos não fossem embora do Estado, nós teríamos, pelo menos, a melhor Orquestra Sinfônica do Brasil.
Paraiba.com.br - Como explicar esta saída?
Hector Rossi - O nordeste, atualmente, tem um povo que gosta de música, quer música, compra música, mas ainda há o preconceito de achar que músico é boêmio, é marginal... O músico é um profissional como outro qualquer. A música é entendida, mas o músico não. E é preciso muito treino, estudo e esforço para ser um bom músico. Temos que respeitar nossos músicos.
Um músico da nossa Orquestra deve ganhar cerca de R$ 700,00, que é quanto custa um bom encordoamento de Contra-baixo. Não dá para viver. Aí eles procuram os grandes centros onde podem ganhar 6, 7, 8 mil reais por mês.
Paraiba.com.br - Há algum projeto de Departamento que você esteja à frente?
Hector Rossi - Tem um projeto, o Café com Pão, Arte Confusão, que tem levado instrumentos para crianças pobres da grande João Pessoa. Crianças que não tiveram chance de estudar e têm entre 8 e 16 anos de idade estão recebendo aula de teoria musical, flauta doce, canto coral e percussão. Nós estamos tentando criar novas oportunidades e abrir novos horizontes para estas crianças.
Paraiba.com.br - Você acaba de lançar um livro. Do que se trata?
Hector Rossi - O livro é o resultado de uma pesquisa de dois anos para o meu mestrado em Educação Popular que fiz em São Caetano, a cerca de 350 km de João Pessoa. Ele conta a história de uma turma de crianças pobres que tiveram contato com a música e, por causa disso, tiveram condições e mudaram seus destinos.
Paraiba.com.br - Para encerrar, o que você acha da Paraíba? Pensa em voltar para a Argentina?
Hector Rossi - É um paraíso, não penso em sair daqui. O tempo, suas frutas, o ar puro, a calma... o nível de vida muito bom. Só dá pena de ver que os paraibanos não valorizam o que têm. É preciso conhecer outros lugares para poder se dar conta das riquezas que a Paraíba tem.
O livro:
- Música e Mudança - Uma Experiência de Educação Popular
ROSSI, Hector Jorge
Editora Universitária UFPB - 2003
Pode ser encontrado no Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. |