Chico César esteve em João Pessoa na primeira quinzena de 2004 para fazer o show de abertura do Festival Centro em Cena, promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope). Antes de subir ao palco para apresentar o acústico "Voz, Violão e Você", o cantor e compositor concedeu entrevista ao Paraiba.com.br. Ele criticou a política de incentivos culturais, acusando-a de privilegiar produções meramente comerciais, como os carnavais fora de época, e revelou o fim de seu selo, o Chita Discos.
Paraiba.com.br - Você criou um selo, o Chita Discos, que lançou o CD "Vem no Vento", do Jaguaribe Carne. Qual o caminho que o selo vai tomar e como tem sido a repercussão deste álbum do Jaguaribe Carne?
Chico César - O disco tem participações de Lenine, Lula Queiroga, Elba Ramalho, Xangai, Vital Farias, Totonho, tem repercutido muito bem por onde ele tem sido divulgado. As críticas são boas principalmente em São Paulo, onde o Jaguaribe Carne vem fazendo shows e onde o trabalho tem circulado com mais efetividade. Estamos inserindo o CD no mercado de Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e há redes de lojas interessadas em distribuir o disco e este êxito não me causa surpresas. Na verdade, o trabalho é muito sólido, consistente...
Paraiba.com.br - E há uma identificação sua com o Jaguaribe Carne. Tem a ver com o início da sua carreira...
Chico César - É. Na verdade, um pouco depois do início. Eu comecei em Catolé do Rocha e para fazer Justiça à minha história e à do grupo, eu comecei no Ferradura. Depois veio o Jaguaribe Carne.
Paraiba.com.br - E a Chita vai lançar outros artistas?
Chico César - Não. A Chita só lançou o Jaguaribe Carne e não pretende lançar nenhum outro disco de nenhum outro artista porque minha vocação não é a de empresário. Eu apenas achei que era preciso fazer Justiça ao valor do Jaguaribe Carne e isso foi feito. Chita Discos não está aberto no presente ou no futuro para ninguém além do Jaguaribe. Se eles quiserem, depois, lançar outro disco, podemos fazer.
Paraiba.com.br - Uma música composta por você e Ana Carolina, "Mais que Isso", é um dos carros chefe do "Estampado" [disco atual da cantora e compositora mineira]. Como surgiu esta parceria?
Chico César - Ela é uma grande artista. Ela estava em São Paulo para comprar um violão e me procurou para mostrar uma melodia. Já tinha o começo de uma letra e eu quis terminar. Nasceu uma canção de amor muito espontânea da qual eu gosto muito. Espero que possam surgir novas oportunidades para trabalharmos juntos. Ana é uma artista contemporânea e muito bem vinda.
Paraiba.com.br - Há um mito de que as cantoras adoram gravar Chico César. O que há no seu modo de compor que atrai a atenção das mulheres da MPB?
Chico César - As cantoras sempre precisam de compositores. Mas, também sou muito gravado pelos homens: MPB4, Renato Braz, Ivan Lins, Quinteto Violado, Sting, Emílio Santiago. Esse negócio de ser preferido pelas cantoras virou meio que um estigma, um mito mesmo. Eu sou gravado por intérpretes, independente de serem homens ou mulheres.
Paraiba.com.br - E seu ritmo de composição atualmente?
Chico César - Eu sempre componho muito. E não sou do tipo que diz assim: agora vou ao escritório compor. Eu faço música no meio da estrada, em qualquer lugar. É espontâneo.
Paraiba.com.br - Depois de "Respeitem meus cabelos, brancos", o que vem por aí?
Chico César - Sabe Deus. Eu tenho muita coisa engatilhada mas ainda não sei o que é. Estou sempre trabalhando em muitas coisas. Não quero criar uma expectativa falsa. Quando eu tiver um bom material, aí sim, vai sair um novo disco.
Paraiba.com.br - Como você se relaciona com os músicos paraibanos? Há uma ligação permanente entre você e os novos e veteranos artistas da Paraíba?
Chico César - A minha ligação com o pessoal da Paraíba é semelhante à que tenho com diversos outros músicos de outras partes do Brasil. Conheço muita gente boa de diversos Estados. Na Paraíba, eu gosto muito de Pedro Osmar, Paulo Ró, Milton Dornellas, Adeildo Vieira, Escurinho... mas, gosto deles todos porque são ótimos no que fazem. O disco que lancei do Jaguaribe Carne, que foi muito bem gravado e produzido em João Pessoa, cumpre esta função de mostrar às pessoas um trabalho muito legal.
Paraiba.com.br - A Paraíba tem uma efervescência musical atípica?
Chico César - Tem muita gente produzindo muito. Nosso vizinho, Pernambuco, talvez produza mais que nós. Só que os pernambucanos não têm essa mentalidade encruada da Paraíba. O Estado já conseguiu criar um circuito e divulgar o que é produzido lá. A Paraíba está alguns passos atrás neste sentido. Precisa aprender a criar seu próprio caminho sem sequer copiar Pernambuco. Quando o Governo e a iniciativa privada investirem mais em música de qualidade e menos em Micaroa, Micareta, Picareta (risos) vai ser bem melhor porque o dinheiro vai circular aqui. |