Angelo Guiamarães
20 de maio de 2005
 
Ator que vive Lalá Padam em "Estrelas ao Relento" fala sobre a reação do público a um transformista de gestos contidos e revela preparação montagem dramática

Por Wagner Lima (especial para o Paraíba.com.br)

Entre o popular e o experimental. Defensor da arte diversificada o ator, diretor e arte-educador, Ângelo Guimarães, acostumado a interpretar personagens engraçados e lúdicos está enfrentando uma verdadeira maratona ao encarnar no espetáculo em cartaz no Teatro Santa Roza, Estrelas ao Relento, de Eliézer Rolim, o homossexual-transformista Lalá Padam. Com gestos contidos e movimentos leves, Ângelo se distancia de grande parte dos personagens dos 16 espetáculos que interpretou em mais de 15 anos de carreira. Aos 33 anos, o intérprete de Lalá Padam se prepara para estrear em julho o espetáculo infantil Estrela do Papel Encantado e dá andamento a pesquisa para O Drama, nova montagem do grupo Meidifêra. Na entrevista a seguir, o ator comenta a experiência de mergulhar no drama, o desejo de fazer um teatro paraibano e urbano e o teatro experimental de Eleonora Montenegro.

Você vem de uma trajetória no teatro com personagens lúdicos. Tem sido um desafio interpretar um personagem sério, homossexual e transformista?
É um desafio, com certeza. Quando Eliézer me convidou e me deu o perfil do personagem eu fiquei muito feliz e assustado ao mesmo tempo porque eu vinha de uma série de espetáculos dessa linha lúdica, mais suave ou do exagero total, do caricato que é o teatro de rua, Meidifêra, com tipos e personagens que vêm com uma ampliação muito grande. Lalá Padam é um personagem que fala dos conflitos da realidade, tanto a questão da homossexualidade, como a questão da vida dúbia, porque ele é um homem que se trasveste de mulher para fazer shows e isso trás um conflito.

Qual tem sido a reação do público diante desse personagem que aglutina o masculino e o feminino em cena?
O retorno que tem me dado do público é positivo. Lalan Padam é um personagem forte e que choca porque quando ele entra tem aquele glamour fazendo um show e depois ele tira a máscara e começa a dizer coisas, são frases que falam de preconceito, do amor entre dois homens e do amor entre homem e mulher de uma forma muito aberta. O personagem tem conceitos fortes para as pessoas e isso tem sido recebido pelas pessoas de forma muita carinhosa. O que me deixa feliz de estar nesse espetáculo é por ele abordar a solidão das pessoas e de como subverter isso. E atuar ao lado de Cryselide Barros e Celsa Monteiro, com quem eu aprendo a cada ensaio e cada dia de apresentação, é uma aula de teatro.

Como foi a pesquisa para compor o personagem? Você se inspirou em tipos e personagens GLS da noite pessoense como os transformistas e drag queens?
Eu não tive tempo porque entrei substituindo um ator a um mês da estréia. Eliézer Rolim, o diretor, chegou e me bombardeou de informação. Eu não segui pelo universo da boate gay, do transformista até porque não tinha tempo pra fazer isso, então, o que me fez construir o personagem foram as imagens dos shows da noite, dos filmes dos anos 50, Marilyn Monroe, Rita . Como também Dina Sfati que fez personagens muito fortes, cheios de conflitos e viveu mulheres loucas e marginais na dramaturgia brasileira.

Lalá Padan é um personagem urbano. Na sua opinião porque existe uma preferência no meio teatral por um teatro clássico ou popular em detrimento do urbano na Paraíba?
Essa é uma tendência do teatro que nos anos 90 veio muito forte. Pelo que pesquisei, esse teatro urbano foi muito presente na Paraíba nos anos 80 até Beijo Roubado, último espetáculo de Leonardo Nóbrega, que tratava de temáticas como prostituição, o urbano e o marginal. O teatro paraibano se afastou disso, mas eu tenho vontade de montar um espetáculo com esse universo, a partir da minha observação com situações urbanas, personagens engraçados e cheios de conflitos e dessa mistura que a cidade está vivendo de sons, tribos, de cultura. É um caminho que o teatro paraibano pode desenvolver melhor.

Por outro lado, é muito forte em tua carreira a realização de trabalhos populares como os espetáculos criados pelo grupo Meidifêra, talvez o de maior projeção.
Nós estamos em fase de pesquisa de um novo trabalho intitulado O Drama, que é um resgate dos espetáculos que eram apresentados nos anos 50 nos circos brasileiros. Todo esse universo que o Meidifêra trás surgiu na realidade da minha infância com o interesse pelos ritmos de raiz, dos tipos populares. Meu pai, Genésio Souza, nasceu no sertão e foi jornalista, rádio-ator, ator de teatro em Campina Grande, escrevia rádionovelas e minha mãe, Ângela Guimarães é compositora, faz poesia e toca coco. Então, eu cresci nesse universo.

Você faz parte de uma nova geração de diretores como Duílio Cunha. Como é dirigir Zezita Matos, uma atriz de reconhecida expressão dramática no teatro de rua?
Zezita é, de fato, uma atriz dramática e está experimentando essa coisa do teatro de rua, que na verdade, é um retorno às origens, porque ela começou fazendo teatro de rua, em cima de um caminhão. Era o teatro político. Eu não acreditava que Zezita quisesse entrar no Meidifêra, que eu dirijo, porque sempre a tive como uma grande dama do teatro paraibano. Então, ela entrou e se entregou nas minhas mãos naquele momento de experimento teatral que é o Meidifêra e descobri que Zezita é uma atriz tão entusiasmada com os experimentos quanto eu. Então. Zezita também é uma aula.

Essa paixão pelo circo e o teatro de rua não te trouxe algum rótulo?
Teve uma época que as pessoas começaram a me rotular de folclórico, Meidifêra, de Ângelo comunitário e, logo em seguida, encenei O Último Verso, um espetáculo de Eleonora Montenegro, resultado de um processo de corpo, de energia, que pra mim foi o divisor de águas porque descobri outras possibilidades, de poder falar de sentimentos mais fortes, então, foi mais um desafio enquanto ator. A arte que eu exerço é a arte diversificada, essa arte que está aberta e está acontecendo no mundo.

 
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