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17 de setembro de 2019

VIOLÊNCIA

Jovem de 16 anos é morto a tiros quando ia para treino de futebol

18/08/2019 | 16h47min

Era um par de tênis cinza, com amortecedores que parecem bolhas de ar. Seu Cristóvão ficou espantado quando o neto Dyogo pediu os calçados. Não pela aparência, eram até bonitos. O problema era o valor: R$360. Os sapatos que calçava para trabalhar custavam R$60, argumentou o motorista de ônibus Cristóvão, a fim de dissuadir o garoto. Tudo em vão, porque, no fim, ele sempre abria uma exceção para Dyogo.

Entregou o cartão de crédito e pediu ao neto para parcelar o pagamento em três vezes. A loja ficava perto da casa deles, na rua principal da favela da Grota, em Niterói, região metropolitana do Rio. Para o aborrecimento do Cristóvão, o vendedor só permitiu dividir a compra em duas vezes. Dyogo levou assim mesmo e quando chegou em casa prometeu ao avô que o recompensaria quando se tornasse jogador de futebol.

Foi por esse enredo que na última segunda-feira, quando Cristóvão, que conduzia o ônibus pela favela, avistou nos pés do corpo estirado no chão o par de tênis cinza, comprado há apenas uma semana, teve certeza que a vítima da vez era seu neto Dyogo.

Cristóvão Xavier, avô do Dyogo — Foto: Ronald Lincoln Jr./GloboEsporte

Cristóvão Xavier, avô do Dyogo — Foto: Ronald Lincoln Jr./GloboEsporte

Dyogo Costa Xavier de Brito, de 16 anos, estava a caminho de Mesquita, na Baixada Fluminense, para o treino de futebol no América-RJ, quando foi baleado e morto ainda no ponto de ônibus na favela da Grota. Era dia operação policial na região. Seu avô Cristóvão foi quem o socorreu. Foi a primeira pessoa da família a ver o sonho de se tornar jogador de futebol acabar de maneira trágica.

Pela qualidade técnica, Dyogo já chamava a atenção de quem assistia aos jogos de futebol no campinho de terra batida na entrada da Grota. Não demorou ele passou a representar o local na Taça das Favelas e, em seguida, chamou a atenção de clubes tradicionais, como a Portuguesa-RJ e do América-RJ, onde jogava até então.

– Ele era primeiro volante com muita qualidade técnica, com muita disposição, dinâmica de jogo, visão de jogo, ele tinha um lançamento muito bom – contou Antonio Villa Flor, coordenador do Sub-17 do América-RJ.

Antonio Villa Flor, coordenador do Sub-17 do América-RJ — Foto: Ronald Lincoln Jr./GloboEsporte

Antonio Villa Flor, coordenador do Sub-17 do América-RJ — Foto: Ronald Lincoln Jr./GloboEsporte

Villa Flor foi quem levou Dyogo para jogar no América-RJ e lamentou a onda de violência que acomete o Rio.

– Eu fico frustrado. É trabalho de enxugar gelo. O garoto era de comunidade, convivia com o estigma de ser de comunidade, que todo acha que vai ser um garoto ruim, mas ele era um garoto maravilhoso. Aí você fala o tempo inteiro: “Foge, sai disso, não fica no lugar errado”. E ele lutando, lutando e morre dessa forma trágica? Não dá pra entender – disse Antonio.

Na última semana, além de Dyogo, outros cinco jovens foram mortos durante ações policiais em favelas da Região Metropolitana do Rio. A situação provocou manifestações de moradores das regiões afetadas e de entidades ligadas aos Direitos Humanos contra a postura da Polícia Militar e o Governo do Estado.

– São jovens, são pretos ou pardos, moradores de favela ou periferia, são gente que tinha tanto talento, tanto sonho, tanta vontade de fazer alguma coisa. E, de repente, por uma política equivocada, acabam perdendo a vida – criticou Jurema Werneck – diretora da Anistia Internacional Brasil.

Dados do Instituto de Segurança Pública, órgão ligado ao Governo do Estado, mostram que no primeiro semestre deste ano 881 pessoas morreram em ações policiais, número 15% maior que o registrado no mesmo período de 2018. O governador do Rio, Wilson Witzel, no entanto, afirmou que não vai alterar a política de segurança pública.

– Não vamos mudar a nossa conduta, porque não podemos mexer naquilo que está dando certo – disse o governador.

A Polícia Civil do Rio ainda investiga de onde partiu a bala que matou o jogador. A Polícia Militar, por sua vez, abriu um inquérito para apurar a conduta dos PMs que participaram da operação na Grota. Enquanto isso, familiares do jogador esperam por justiça.

Dyogo e Kauê em Niterói — Foto: Arquivo Pessoal
Dyogo e Kauê em Niterói — Foto: Arquivo Pessoal

Parceria

Dyogo teve a trajetória no futebol interrompida precocemente. No entanto, com a ajuda do jogador, o amigo Kauê Leonardo deu passos importantes em busca do mesmo objetivo: se tornar jogador profissional.

– Eu jogava na escolinha, não tinha chuteira para jogar um torneio na Espanha. Então, o Dyogo pediu ao avô dele para comprar uma chuteira maior só para eu poder usar também. Ele mesmo calçava 39. E eu, 42 – contou Kauê.

Quando o avô perguntou o porquê de ter comprado uma par de chuteiras bem maior, Dyogo argumentou que, assim, duraria por mais tempo, mas na verdade só queria dar uma força para Kauê.

Kauê, amigo Dyogo — Foto: Ronald Lincoln Jr./GloboEsporte

Kauê, amigo Dyogo — Foto: Ronald Lincoln Jr./GloboEsporte

– Eu vou fazer de tudo pra vencer por ele, no futebol ou na vida. Em qualquer lugar eu vou vencer por ele – disse o jogador.

Atualmente, Kauê defende o time Sub-15 do Botafogo e é patrocinado por uma empresa fornecedora de material esportivo. Há três meses, a família de Kauê decidiu se mudar da favela da Grota para morar no bairro de São Francisco, região de classe média de Niterói. Abandonaram a favela para fugir da violência, da brutalidade que fez de Dyogo mais um número nas estatísticas criminais.


Globo Esporte

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