X
Dólar
Euro
09 de dezembro de 2019

DEPRESSÃO + BULLYING VIRTUAL

Jovem que foi abandonada no altar e casou consigo mesma é encontrada morta

16/07/2019 | 09h33min

Uma jovem de 24 anos cuja história repercutiu após ser abandonada no altar e casar consigo mesma, no último sábado (13), foi encontrada morta no Rio de Janeiro, cidade onde morava, nesta segunda-feira (15). Ao ligar para Alinne Araújo com o intuito de repercutir a forma como ela encarou o casamento, o BHAZ foi informado pela mãe dela sobre a morte. “Ele acabou com a vida dela, ela morreu”, falou, se referindo ao noivo.

O Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro confirmou a morte da influenciadora vítima de queda do apartamento na avenida Salvador Allende, no bairro Recreio dos Bandeirantes, na capital fluminense. A chamada ocorreu no por volta das 16h50.

Alinne era dona de um perfil no Instagram onde contava sobre sua relação e experiência com duas graves doenças: ansiedade e depressão. E, durante a noite do último sábado (13), publicou um relato a respeito do ocorrido. A jovem inicia falando da dor de confiar em alguém cegamente e ser pega de surpresa com a notícia de que seu noivo não se casaria mais. Além disso, coloca em pauta a questão frágil de sua saúde e afirma que ele não teria se importado com isso.

“Um dia antes da celebração do amor de vocês a pessoa some. Manda uma mensagem pelo wpp e termina todos os sonhos de vocês, fui pega de surpresa, quis morrer, ele sempre soube da minha condição e não se importou como eu estaria. Eu recebi a notícia estava dirigindo, tive uma crise no volante me atirei numa via expressa, mas papai do céu é bom e me salvou mais uma vez”, publicou na rede social.

Apesar da dor enorme, a jovem tomou a decisão de ir à festa de seu casamento sozinha. “Poderia ficar aqui chorando, mas tem uma festa linda me esperando, então hoje caso comigo mesmo em nome da minha vida nova. Me desejem sorte. Amo vocês”.

A cerimônia foi transmitida ao vivo pelo Instagram da jovem e movimentou a internet. Entre inúmeros comentários desejando felicidades, muitos eram criticando a garota e dizendo que ela queria apenas ‘fama’.

Após toda a repercussão, Alinne se manifestou em seu story, nesta segunda (15), horas antes de cometer suicídio: “Quer me chamar de biscoiteira, marketeira?! Legalzão, né?! Fazer um marketing sobre uma noiva que foi abandonada no altar. Nossa incrível, desejo isso pra todo mundo”.

Na sua última aparição pública, a jovem diz que não falaria mais sobre o assunto e desabafa. “É a última vez que eu me pronuncio aqui sobre essa palhaçada de eu estar querendo me promover. Foi um dos piores momentos da minha vida”

O casamento

Antes de falar a respeito dos comentários, Alinne gravoustories contando o motivo do ocorrido. Segundo a jovem, ela e o ex-noivo, Orlando, estavam juntos há dois anos e o casamento estava sendo organizado há seis meses. Mesmo com a triste surpresa, a moça saiu em defesa do ex-companheiro.

“Ele era um cara ímpar, uma pessoa de caráter, um cara maravilhoso. Se esta festa aconteceu foi graças a ele. Eu não estou com raiva dele, eu não estou com nada dele. Se ele fez isso, ele teve os motivos dele, porque durante 2 anos de relacionamento a gente sempre se respeitou. Então eu desejo tudo de bom pra ele”.

Afirmou ainda ter ido se casar para celebrar a vida. “Eu tinha duas opções: ficar em casa, chorando e sofrendo ou eu chorava e sofria por dentro em uma festa que estava lá toda paga, e só a gente sabe o quanto foi difícil”.

Depressão e ansiedade

No ano passado, um grupo de 200 cientistas de todo o mundo publicou um estudo inédito sobre depressão na revista “Nature Genetics”. Mais de 40 genes associados à condição foram identificados em uma espécie de “mapa” da doença. Embora as pesquisas estejam avançando, ainda não é possível determinar com exatidão o que provoca o transtorno. Diz-se que há a influência de fatores externos, mas também de uma pré-disposição.

Dados da OMS, divulgados em 2017, apontam que 11,5 milhões de brasileiros têm depressão – o que torna o país o líder na América Latina e o segundo com mais prevalência nas Américas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Embora assustem, os números parecem não refletir a situação do Brasil com o devido peso. É que, além de a doença não ter “cara”, os depressivos ainda precisam lidar com o sofrimento e enfrentar estigmas e preconceito. Segundo o psicanalista e psicólogo Eduardo Lucas Andrade, o julgamento é uma forma de abandono.

Divulgação/EBC

“O julgamento, a moralidade e as críticas representam abandono para pessoas depressivas. É necessário acolher e ter escuta atenta a essas pessoas para que haja possibilidade de tratamento. Não é só falar, é realmente estar junto e procurar tratamento. Muitas pessoas não buscam por receio, por medo, muitas não conseguem falar sobre e outras evitam justamente para não lidar com o olhar preconceituoso do outro. Não tem isso de ‘doença de rico’, de estar com o ‘diabo no corpo’. Essa postura só ataca o indivíduo e não ajuda em nada”, pondera.

Andrade diz que não culpabilizar pessoas depressivas e ficar em alerta para os sintomas são boas formas de identificar quem precisa de ajuda. “A pessoa pode não falar abertamente sobre a doença, mas ela ‘diz’ de outras formas. Um exemplo são frases de alerta e autodestrutivas”, conta. E, além da saúde mental, a depressão também pode afetar seus portadores fisicamente. Os sintomas podem se manifestar por meio de distúrbios do sono, de problemas digestivos, dores de cabeça, mudanças no apetite e peso, cansaço e fadiga, entre outros.

Divulgação/Ministério da Saúde

O tratamento para depressão pode ser obtido por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. No entanto, é preciso passar por avaliações médicas para se determinar quais serão as ações para melhor tratar os indivíduos, já que cada caso tem suas especificidades. “Em casos mais graves, é necessário fazer o uso de medicamentos, além da terapia, que é indicada para quem tem transtornos nesse sentido. É um cuidado permanente. Pode existir, em algum momento, a sensação de que não é necessário mais se tratar, mas ninguém deve se dar alta por conta própria. A depressão pode voltar pior. Então tem que fazer o acompanhamento”, explica.

Outro caminho para se conseguir ajuda são as escolas-clínicas de faculdades e universidades, que oferecem atendimento a pessoas com sofrimento mental. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é uma das instituições da capital mineira a contar com tal possibilidade. Lá são realizados atendimentos psicológicos acessíveis à população. Clique aqui para saber mais.

Suicídio

A depressão é uma das doenças que pode levar alguém a cometer autoextermínio. No entanto, não é a única. A psicóloga especialista em saúde mental Thaís Alves explica que outros transtornos mentais e processos dolorosos, além da dependência química, também podem desencadear tendências suicidas. Ela explica que tirar a própria vida está entre as cinco causas de morte com maior ocorrência em todo o mundo. E crava: é preciso discutir o assunto, de forma responsável, cada vez mais. “Falar sobre morte é também falar sobre possibilidades de vida”, diz.

“O suicídio é algo que acompanha e atravessa a existência humana desde seus primórdios. Diversas ciências se propõem a pensar a existência e há bastante material sobre o assunto. Ainda assim, até hoje é muito difícil falar sobre esse problema e enfrentá-lo”, pondera. “O suicídio ocorre quando o individuo tem dificuldade em lidar com problemas do campo da perda de possibilidades, dos laços. A morte é vista como uma forma de atenuar o sofrimento. Não trata-se de um interesse pela morte em si, mas de encará-la como um meio para uma finalidade”, conta.

A especialista aponta o fato de o autoextermínio ser considerado um tabu, por diferentes motivos, como uma das dificuldades de se discuti-lo de forma mais abrangente. “Muitas pessoas não querem falar sobre, existe um estigma relacionado às pessoas que se matam e que têm tendências suicidas. Mas é urgente tratar desse assunto, os números nos alertam”, afirma.

Dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2018 durante o Setembro Amarelo – que faz campanha de prevenção ao suicídio -, mostram que, de 2007 a 2016, mais de 100 mil pessoas morreram em decorrência do autoextermínio. Naquele ano, a taxa foi de 5,8 por 100 mil habitantes. A região Sudeste do Brasil foi a que concentrou maior parte das ocorrências em 2017, 49% do total, seguida pela região Sul, com 25%. A meta da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de reduzir em 10% os casos de morte por suicídio até 2020.

Segundo Thaís, as famílias de pessoas que cometem suicídio, ou que tentam contra as próprias vidas, ficam bastante marcadas no próprio meio e diante da sociedade. Ela aponta o julgamento dessas pessoas e das situações como um erro. “As famílias vivem uma espécie de luto duplicado. O primeiro tem a ver com a perda em si e o segundo com o fato de que a pessoa foi responsável por provocar a própria morte”, explica. O ideal, de acordo com ela, é que as pessoas procurem não culpabilizar e sim entender o momento enfrentado pelas pessoas em questão.

“O suicídio está relacionado a um sofrimento extremo, mas há pessoas que fazem sim para chamar atenção. Mas, se alguém chega a tal ponto, em busca de atenção, é um indicativo, uma denúncia de que há algo errado, existe algum sofrimento real ali”, conta. “Se a pessoa perdeu o emprego, terminou um relacionamento, e passa a ter tendências suicidas, há algo muito importante para aquela pessoa ali. Não falar sobre o assunto, ou relativizar a dor do outro, não ajuda em nada”, explica. Ela conta ainda que adolescentes, jovens e pessoas LGBT encabeçam a lista de pessoas que cometem autoextermínio. “É preciso entendermos também o tempo, o espaço e o contexto em que estamos localizados. As pessoas estão sobrecarregadas”, diz.

Ato na orla de Copacabana marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. O evento faz parte da campanha Setembro Amarelo    (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Thaís ainda afirma que o suicídio deve ser encarado como um problema de todos e aponta caminhos para que as pessoas se cuidem. “A sociedade tem que se envolver nessa discussão, assim como as famílias, amigos e pessoas próximas. O sofrimento do outro tem sido banalizado, mas é impossível pensar em intervenções sem traçar uma relação com o ambiente em que a pessoa propensa ao autoextermínio vive. Trata-se de todo um processo”, pondera.

A especialista conta que conviver com pessoas que desejam tirar a própria vida é algo complicado e que requer cuidados. “Os discursos geralmente são pesados e repetitivos, se nós que estamos preparados para ouvi-los sentimos o peso, imagine quem não tem uma escuta qualificada e formas de lidar com essas situações?”, reflete.

Divulgação/Agência Brasil

“Em alguns casos, a pessoa não quer procurar ajuda e se recusa a consultar um médico, que é o primordial. As pessoas próximas devem, então, procurar ajuda com profissionais para um direcionamento do que fazer. É uma forma de ajudar o outro e a si mesmo”, ensina. “O sofrimento que pode fazer alguém querer tirar a própria vida pode se materializar em sintomas que vão desde a perda de sentido, das coisas e da vida até a aparência. Um discurso repetitivo e mudanças comportamentais também podem indicar que a pessoa precisa de ajuda”, explica.

Thais ainda faz uma diferenciação entre o sofrimento crônico, que pode desencadear tendências suicidas, ao sofrimento do cotidiano. “O sofrimento do cotidiano é algo que nos acompanha, que faz parte da experiência humana. É preciso vivê-lo e assumir as rédeas para mudar as situações que o provocam, quando possível. É importante questionar: ‘qual a minha responsabilidade no meu sofrimento?’, e entender que a vida não é feita apenas de derrotas, nem apenas de vitórias. São fases, processos e ciclos”, pontua.

Prevenção ao suicídio

Ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV), que auxilia na prevenção do suicídio, passaram a ser gratuitas em todo o país em julho do ano passado. Um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Saúde, assinado em 2017, permitiu o acesso gratuito ao serviço, prestado pelo telefone 188.

Por meio do número, pessoas que sofrem de ansiedade, depressão ou que correm risco de cometer suicídio conversam com voluntários da instituição e são aconselhados. Antes, o serviço era cobrado e prestado por meio do 141.

A ligação gratuita para o CVV começou a ser implantada em Santa Maria (RS), há quatro anos, após o incêndio na boate Kiss, que matou 242 jovens. O centro existe há 55 anos e tem mais de 2 mil voluntários atuando na prevenção ao suicídio. A assistência também é prestada pessoalmente, por e-mail ou chat.


Agência Brasil

Você também pode enviar informações à redação do portal paraiba.com.br pelo whatsapp 83 98149 3906.