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26 de junho de 2019

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Uma nova Revolução Francesa: por que esta Copa do Mundo Feminina já é histórica antes mesmo de começar

07/06/2019 | 12h20min
Foto: AFP

É bem verdade que toda Copa do Mundo naturalmente entra para a história do esporte. Mas não é exagero dizer que o que vamos viver a partir desta sexta-feira é histórico, antes mesmo de a bola rolar. E quis o destino que a edição do torneio feminino da Fifa, deste ano, fosse em um país que se não somente mobilizou, como carrega, em sua memória, a luta de mulheres.

Ainda é preciso voltar séculos para entender, mas registros históricos apontam a França como o berço da primeira onda feminista, durante a Revolução Francesa. E, a partir desta sexta-feira, as jogadoras de futebol de 24 seleções irão protagonizar o torneio que já é revolucionário desde suas fases eliminatórias.

Outro nível

Ao contrário da Copa do Mundo dos homens, a Copa feminina ainda é um evento consideravelmente novo. A primeira edição da Fifa foi há 28 anos, em 1991, e apesar das barreiras quebradas e recordes positivos ao longo do tempo, a edição que começa nesta sexta traz novas possibilidades.

Nunca antes houve tantas seleções niveladas por alto e tão pretendentes ao título, como neste Mundial. Além das atuais campeãs americanas, Alemanha, França e Inglaterra estão na lista para chegar ao topo. Destaque também aos trabalhos de Austrália, Holanda, Canadá e Japão.

Jamaica vai disputar a Copa do Mundo Feminina pela primeira vez na história  — Foto: AFP

Jamaica vai disputar a Copa do Mundo Feminina pela primeira vez na história — Foto: AFP

Melhora técnica é fruto de investimento

E há uma razão lógica para isso: a força das ligas de futebol feminino. Principalmente no exterior, com clubes fortes, de camisa, investindo. Uma liga forte deixa a seleção mais forte. E, se antes, Estados Unidos nadavam a braçadas largas na modalidade, o desenvolvimento de ligas na França, Inglaterra e Espanha aumentou a competitividade, fazendo com que elas alcançassem as americanas.

O que também aumentou foi o interesse do público. Barcelona e Atlético de Madrid colocaram mais de 60 mil pessoas no Wanda Metropolitano em um dos jogos de seus times femininos. Tudo isso reflete no nível das atletas do país dentro de campo.

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Fator imprensa

Será a Copa feminina com maior alcance em termos de transmissão – serão 130 emissoras envolvidas e com alcance de 135 países. É também um Mundial que buscou mobilização em campanhas anteriores ao torneio para chamar a atenção das pessoas. A resposta foi positiva. Além de marcas fortes de patrocínio esportivo, as seleções também entraram forte na ideia, já que as campanhas tiveram largo alcance.

Não por acaso, a convocação da Inglaterra teve a participação de atores do filme Harry Potter e do ex-jogador e craque inglês, David Beckham.

No Brasil, essa será a primeira vez que a TV Globo transmitirá todos os jogos da seleção brasileira feminina em uma Copa do Mundo.

Caça aos ingressos

Um fator para lá de importante. Dois meses antes do Mundial, a Fifa anunciou que a venda de ingressos já estava quebrando recordes. Para se ter uma ideia, as entradas para finais e semifinais esgotaram em apenas 48 horas. Aliás, dez jogos já estão com todos vendidos.

O clima na França é de otimismo com o time local.

Estados Unidos foram campeões da Copa no ano passado — Foto: AFP

Estados Unidos foram campeões da Copa no ano passado — Foto: AFP

O mundo mudou. E a Fifa também

Nada do que vamos vivenciar na França nas próximas semanas é por acaso. É preciso lembrar que os últimos anos foram marcados por movimentos feministas e de igualdade de gênero fundamentais em todos os segmentos, de diversos países. Não poderia ter sido diferente no esporte. A Fifa abriu os olhos.

Em um de seus congressos, no ano passado, a entidade anunciou uma estratégia de crescimento para o futebol feminino. Ela acredita que, já na próxima edição da Copa, esse desenvolvimento seja ainda mais notório dentro de campo. Quer desenvolver e explorar talentos, e diz contar com federações do mundo todo para isso. O investimento, se comparado com uma Copa do Mundo como a da Rússia, ainda deixa a desejar.

Mas quando o assunto é dinheiro…

Em entrevista ao GloboEsporte.com esse ano, o vice-secretário-geral da Fifa, Zvonimir Boban, citou que a entidade não gosta de trabalhar com qualquer tipo de comparação entre os dois torneios. Mas a premiação, por exemplo, segue sendo uma questão para atletas.

A França, campeã do mundo do ano passado, embolsou 38 milhões de dólares, de um prêmio de 400 milhões divididos entre todos os participantes. Já a premiação geral da Copa Feminina, no dia 7 de julho, será de 30 milhões de dólares, sendo cinco milhões às vencedoras. Vale ressaltar: a premiação já foi dobrada em relação ao Mundial de 2015.

Estados Unidos são a seleção mais vitoriosa do torneio mundial — Foto: AFP

Estados Unidos são a seleção mais vitoriosa do torneio mundial — Foto: AFP

No Brasil, nostalgia e retrospecto ruim

Uma geração duas vezes medalhista olímpica e vice-campeã mundial do futebol feminino está chegando em seu último ato. Três delas, para ser exato. Marta, ainda deixa em aberto a possibilidade de jogar outro Mundial, daqui quatro anos, mas essa será de fato a despedida de Cristiane e Formiga – recordista entre homens e mulheres em sua sétima Copa do Mundo, aos 41 anos. As três mais experientes da Seleção e únicas remanescentes de uma geração que elevou o Brasil de patamar, quando o esporte ainda era tratado com amadorismo.

Por mais que tenhamos a seis vezes, e atual, melhor do mundo, o Brasil não carrega aquele favoritismo de outros anos. Chega na França com o retrospecto de nove derrotas em nove jogos. Com Marta em pleno processo de recuperação de uma lesão. Mas, mesmo assim, internamente, acredita-se em um grupo disposto a mudar o cenário e usar o ambiente de Copa do Mundo para isso.

Marta em coletiva de imprensa na Granja Comary — Foto: Rener Pinheiro / MoWA Press

Marta em coletiva de imprensa na Granja Comary — Foto: Rener Pinheiro / MoWA Press

Marta ainda pode quebrar mais recordes

A Marta é a maior jogadora de futebol de todos os tempo e, na disputa da França, ela tem a grande chance de ultrapassar o alemão Klose como a maior artilheira de todas as Copas. Ela já marcou 15 gols em mundiais, enquanto Klose tem 16.

Se pararmos para pensar que, durante 38 anos, até 1979, o futebol feminino era proibido por lei no Brasil, e visto com muito preconceito em boa parte do mundo, o Mundial da França e seus números mostram que isso está prestes a mudar.

E a Copa do Mundo da França de 2019 talvez seja a primeira desde que essa mudança, de fato, tem começado a ser aceita por uma parte considerável da sociedade. Finalmente, hoje, ouvimos que ”não é não”, ”respeita as minas”, ”deixa ela trabalhar” e tantas outras vozes que pedem igualdade e respeito.


Globo Esporte

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